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A saga de um desempregado em Sanja City. fernandoyokota@ hotmail.com

 

13.4.02

 
Volto quando achar algo para escrever ... (Oasis, Heathen Chemistry)




11.4.02

 
Quinta, 11/4

Se você mora sozinho sabe do que estou falando ...

Gostaria de ser um desses caras que cozinham pra caramba e sabem até lavar couve-flor decentemente. Queria ser saber o que fazer com um pedaço de carne inteiro e como grãos duros de feijão acabam virando aquilo que acabo comendo com arroz (você coloca o arroz por cima do feijão, faz o contrário ou coloca um ao lado do outro?). O pior é quando no meio do desespero descobrimos que a única coisa a ser feita é pegar aquele último pacotinho de miojo e jogá-lo nos 450ml de água já fervente. Descobri a diferença entre as pessoas que moram sozinhas e as pessoas que moram sozinhas mas não sabem cozinhar quando me flagrei contando os tais três minutos que supostamente o macarrão (aka monte de glúten com conservante) leva para estar devidamente cozido.

Acabei colocando pouca água no macarrão e larguei a panela no fogo alto por mais tempo já que o telefone tinha tocado (acho que foi quando eu estava no dois minutos e dezessete segundos) e no final das contas vi a água fugindo pela janela em forma de vapor. Restou-me então colocar em prática aquilo que fez daVinci famoso (tirando a Monalisa): inventar coisas. Unindo a necessidade de inventar algo com aquele bolo de macarrão pré-fabricado e as próximas datas de validade de várias coisas na geladeira, fiz ainda o favor de desocupar bastante espaço ali dentro utilizando tudo que potencialmente pudesse tornar parte de um molho. Cinco minutos depois estou eu indo em direção à sala com um prato numa mão e uma taça de vinho na outra, achando tudo muito cool e bacana. Cool definitivamente não é a palavra certa para descrever o inferno gástrico que rola aqui dentro. Talvez um harakiri de dentro para fora seria a descrição mais exata do que se passa.

Monitores que explodem à parte, de resto vai tudo bem. Ou tendendo à melhora ...

(Black Crowes, 99x acoustic live)

PS - vejo aqui no chão um monitor coberto de fuligem.

PPS - tive que consultar o dicionário porque não sabia se escrevia fuligem ou foligem.



9.4.02

 
Trinta e cinco do segundo tempo, três a um para o Barça e pressão de ambos os ataques. O Panathinaikos jogava-se desesperadamente ao ataque e não tinha outra escolha senão um tento a mais para se classificar e desbancar o (atualmente capenga) esquadrão catalão em pleno Camp Nou (ou Nou Camp, dizem que tanto faz ...). Emmanuel Olisadebe invade a área e na dividida choca-se cabeça-a-cabeça com o guarda-metas argentino Bonano. O pobre Bonano saiu de maca e de presente ganhou um colar cervical, e quando achei que tinha acabado por aí as trêmulas câmeras focalizam alguém no banco do Panathinaikos caindo duro no chão. Já vi jogos que foram verdadeiras batalhas, mas nunca tinha visto algo assim. John Rambo teria um lugarzinho naquele meio-campo porque o Camp Nou era a imagem do inferno ...

Passei a tardezinha ouvindo pela milésima vez o CD novo do Stevie Ray Vaughan, uma compilação dos dois shows que ele e o Double Trouble fizeram no festival de Montreaux. Quem gosta do Stevie Ray sabe que ele sempre foi aquele cara que parece ser meio bobão, meio fora da realidade, mas um grande cara dotado de um coração de mãe. Deviam ter falado isso àqueles trogloditas sentimentais que foram vê-lo tocar em 82 e talvez pensariam duas vezes antes de vaiar o pobre Stevie Ray. Ele fazia de conta que não era com ele, mas até eu, com quatro anos na época, notaria a tristeza em sua voz. Alguns diziam que era barulhento demais e que não deveria estar ali tocando, mas qual seria a base disso? Montreaux deixara de abrigar um festival puramente jazístico há anos e dizer algo assim seria jogar no time da direita musical claramente. Se Jackson Browne e David Bowie não estivessem naquele lugar naquele dia com certeza Stevie Ray Vaughan seria hoje somente o irmão mais novo de um bluesman meio falido de Austin (não que ele seja ruim, mas estaria tocando em botecos até hoje), um tal de Jimmy Vaughan. "Three years ago we got a boo, now we got a Grammy". Prova de que veneno de cobra não apaga fogo.

Stevie era um cara que eu gostaria muito de ter conhecido, muito mesmo ...

(Yamandú Costa. Sensacional! Falo sobre ele amanhã.)

Escreva pro Jotinha!

 
Terça, 9/4

O que a miséria da São Petesburgo de Dostoiévski e a sujeira californiana de Bukowski e o blog do Jotinha teriam em comum, lógico que sem contar o vinho. Difícil, não? Ratos, na verdade um único.

Estava eu exatamente aqui em frente ao monitor digitando qualquer coisa quando subitamente minha mãe diz que viu um rato entrando pelo portão de casa. Num primeiro instante suspeitei das sombras que a TV ligada projetavam nas paredes da sala pois eu memso já fui vítima de tal equívoco óptico. Por outro lado era possível notar que ela tinha muita certeza de ter visto o roedor, então prontamente passamos a procurar o bichinho. Pergunto eu então: numa casa grande como essa é lógico que o último lugar que o animal escolheria para se esconder seria o meu arrumado quarto, certo?

A imagem que os olhinhos pretos do ratinho devem ter captado no momento em que passou pela porta de meu não-tão-arrumado-assim quarto deve ter sido algo equivalente a um campo de guerra para um ser vivo daquele tamanho e obviamente era o lugar perfeito para se esconder. Mesmo sabendo que provavelmente o aspirante a Jerry estava logo ali resolvi pegar meu livro e tentar esquecer afinal de contas não tinha certeza absoluta de que eu coitado ali estava. Noto então um rápido movimento de sombra no canto do olho e penso comigo mesmo que "é lógico que é a sombra feita pela claridade da TV". Lembrei então que eu estava lendo e não assistindo a TV e que seguramente era o rato que esperava por um momento de distração minha para bater em retirada. Qualquer pessoa quando resolve ir morar sozinha acaba descobrindo que não sabe fazer uma porção de coisas como consertar um chuveiro, arrumar um encanamento ou até trocar um bujão de gás. Eu descobri que não sabia como matar um rato, ou pior: talvez não teira coragem de fazê-lo. Me senti um monstro de seriado japonês tentando pegar o minúsculo e infinitamente mais rápido roedor e acabei decidindo que o melhor a fazer seria esperar a próxima investida doe meu oponente. Minutos depois vejo a arisca criatura cruzando o quarto e identifico a localização exata dele. Aciono o alarme vermelho e em dez segundos a cavalaria inteira estava lá, armada e de prontidão. O pobre rato não teve chance, foi encurralado e estava morrendo de medo. Após cirúrgica operação capturamos o inimigo que foi devidamente recluso à sacola plástica de uma loja qualquer de CDs.

Nos olhos do pobre animal, sinais de angústia eram transmitidos continuamente e eu não tive coragem de mover uma palha contra o bicho. Covardemente entreguei a sorte do ratinho ao meu pai, e sinceramente nem quis saber qual foi o desfecho.

Instantes depois lá estava eu arrumando meu quarto para que um rato nunca mais caísse na tentação de nele se esconder. Não suportaria ter que olhar para aqueles olhinhos pretos esbugalhados mais uma vez ...

More to come ...

(Alanis Morissette, Under rug swept)

Escreva pro Jotinha!



8.4.02

 
Segunda, 8/4

Há dias para ir ao cinema e dias para ir ao cinema e parece que toda semana chego a essa conclusão pela primeira vez. Quartas (por causa dos preços mais baixos o dia inteiro) e fins de semana sempre foram dias a serem evitados e sempre que posso deixo para ver filmes às terças, quintas ou domingos à tarde (aos domingos mais pela tradição que pela comodidade). Presumo que você esteja perguntando pela segunda-feira e acabei não me referindo a ela por quase não ir ao cinema na segunda. Não há motivos especiais para isso, simplesmente acontece.

Eis que hoje resolvo ir ver A vingança do mosqueteiro (o chamado "filme legalzinho"), sim, em plena segundona. O que não esperava encontrar por lá era uma promoção de 2,50 e uma horda de adolescentes comprando ingresso. Num dia como qualquer outro com certeza daria meia-volta e voltaria para casa mas não sei por que acabei encarando a fila. Entro então na sala e escolho um assento mais ou menos no meio e perto do corredor. Em ocasiões normais com certeza sentaria num lugar mais alto mas tamanha era a excitação hormonal nas fileiras superiores que eu, na condição recém-adquirida de tiozão rabugento, preferi ficar mais embaixo mesmo. Dez minutos depois percebo que estou rodeado de moleques chatos fazendo piadinhas tão ridículas quanto zaga do São Paulo. De repente pipocas, camisinhas infladas e todo e qualquer tipo de objeto começa a voar e o moleque ao meu lado se apodera do braço direito da minha poltrona com seu cotovelo, o que me tirou o último pingo de paciência. Após uns cinco minutos de pé encontrei um lugar muito, mas muito longe e ali fiquei. Logicamente meu celular, já tradicionalmente (um dia preciso falar sobre minha teoria da tradicionalidade aplicada aos pequenos negócios ...), caiu no chão e se espatifou em dois e fiquei com uma certa vontade de ir ao banheiro (cortesia do suco de tangerina com aroma de ovo).

Terrores à parte saí decidido a comprar uns CDs e tive o azar de encontrar muita coisa que há tempos queria ...

- Familiar to millions do Oasis (a gravação não é tão ruim assim);
- Stevie Ray Vaughan and Double Trouble, Live at Montreaux 1982&1985;
- o Cd do destruidor Yamandú Costa;
- um barato Pulse do Pink Floyd;
- e o novo da Alanis (por já não esfoladores assim 24 reais).

Bom, tá meio complicado de escrever hoje. Vamos ver o que o velho rock and roll pode fazer por mim em mais um dia de bad mood.

(Oasis, Familiar to millions)



7.4.02

 
Domingo, 7/4

Dizem que somos como senóides, com vales e picos. Acho que até concordo com isso mas senóides são simétricas e periodicamente regulares então creio que estamos mais para uma série de Fourier indissecável.

Deixando a matemática de lado - visto que nunca fui aluno dos mais aplicados - volto ao que me levou a lembrar das pobres cobrinhas matemáticas. Dia de cão esse de hoje, mesmo sendo um domingo como qualquer outro. Ou talvez justamente por ser um domingo como qualquer teria hoje sido um dia longe dos melhores. Praticamente livre da debilitação digestiva que me derrubara na sexta resolvi pegar a bike e dar aquela já consagrada volta light dominical (sem seguir reto pela Dutra até o Carrefour, preferindo entrar pela Tivoli seguindo até a Vila Ema). Não precisei de muitos minutos pedalando para perceber que uma semana de ócio físico em Sampa me custaram centímetros mais longe do guidão e dias mais longe das tão reivindicadas calças 38 que a cada dia que passa vão ficando mais para o fundo do guarda-roupas.

Se a Internet serve como via de integração entre as pessoas o contrário é igualmente verdadeiro. Devo ter me indisposto com 80% das pessoas com quem "falei" hoje. Tenho que agradecer pela chuva que caiu pois foi (literalmente) a gota d'água que faltava para eu desligar o computador e me afundar nos vários livros que em fila indiana esperam para serem violados pela minha curiosidade. Aliás, se estou aqui escrevendo é porque meus olhos estão secos por causa do ventilador que teimo em deixar ligado mesmo com o clima não tão absurdamente quente (está até friozinho agora).

Tenho que te dizer que tenho medo até de escolher os CDs errados para ouvir com medo de me azedar até por causa das canções erradas que eu possa ouvir. De uns anos para cá comecei a seguir uma regra até certo ponto simples: em situações como essa pegue discos de blues. Fiz aqui uma torrezinha de caixinhas de CD que incluem o óbvio e sempre raivoso Stevie Ray Vaughan (hoje parei para pensar e talvez Stevie seja meu guitar hero número 1), Blues Traveler (que de blues tem muito pouco mas não deixa de ser ótimo), Blues Etílicos (esse disco ao vivo é bem legal), o joseense Lancaster, um CD-coletânea (com Muddy Waters, John Lee Hooker entre outros) e meu CDRzinho do indispensável e endiabrado Robert Johnson. Vamos ver até onde consigo chegar hoje ...

(Blues Traveler, Four, The mountain wins again. Acho que sou o único cara no mundo que prefere o Straight on till morning)





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